
Acordou com a boca seca e os olhos ainda fechados bem apertados como quem não quer expô-los a realidade.
Ouviu uma voz aconchegante, e mesmo que não seja das mais bonitas, era aquela a voz sempre presente independente do bem ou do mal.
Abriu.
Abriu os olhos e pensou que com toda a certeza do mundo a dona daquela voz merecia um olhar afetuoso, mesmo que sonolento.
Era mesmo o motivo de um aviso de distância curta e rápida: ''vou, mas já volto'' e ainda com um amor imensuravel não descuidou: ''não esqueça do seu remédio''.
Levantou, despejou agua em seu rosto e olhou. Olhar-se no espelho, além de mostrar a realidade nua e crua, mostra o interior de uma pessoa visto em seus próprios olhos, também nú, crú e exposto.
Só não vê quem não quer. Tem, é claro, os que se deixam manipular.
Teve uma forte vontade de mudar. Pensou em cortar seus cabelos, pintá-los, colocar mais um ou dois piercings, e tudo o que represente uma mudança aos olhos de quem vê.
Porém, isso já não lhe curaria mais. O mal estava do lado de dentro, havia poluido partes essencias para a sensata e alegre existência humana.
A voz voltou:
''Você cortou seus cabelos, minha filha.''
(não consigo dispensar o amor de tudo o que vem da dona dessa voz).
''Sim, mãe. Foi um corte de desejo.
Desejo mesmo de me mudar.''
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